“Que me dá uma saudade danada, dá”.
Grande conhecedor dos velhos carnavais bonfinenses, Tito Rocha, vivenciou, cobriu jornalisticamente, brincou e curte até hoje o Rei Momo da terrinha. Tomou cervejinhas com figuras hilárias e folclóricas, gente que se assumia com a cara de carnaval o ano inteiro, e gente que se escondia de folias o tempo todo para em apenas três dias explodir em fantasias e fazer amigos e parentes corarem de surpresa. Ele tem o que dizer e diz.
Tem até tese sobre carnaval de rua e carnaval de clube. Não diz que é tese, mas poderia ser levada para a academia. Nomes, celebridades e localizações pululam na memória de Tito. Envolvido com suas próprias emoções, ele adiou o almoço para duas horas depois. O que não queria era perder de reviver tanta saudade. Atendeu a Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura Municipal (Ascom), e esta percebeu que quando o assunto é carnaval, Tito começa de mansinho e mergulha no tempo:
Tito Rocha – Em 1980, quando entrei na Rádio Caraíba, tentei produzir um programa carnavalesco. Antes procurei pessoas que conheciam os carnavais antigos de Bonfim, o Joaquim Muricy, para saber como ele começou aqui.
Ascom – Por que Muricy?
Tito Rocha – Era uma pessoa dinâmica. Joaquim Muricy gostava de carnaval, futebol, política. Era socialmente envolvido. Procurei o Aragão, Carvalho Neves, Otacílio Neves... Ninguém tinha data precisa do começo do carnaval em Bonfim. Sabiam de influências trazidas de outras cidades e regiões.
Ascom – Nessa época, o carnaval era como?
Tito Rocha: O carnaval de clube estava terminando. Houve a fase de rua e a fase de clube. Em 80, a Sociedade dos Artistas não se falava mais, a Sociedade 25 de Janeiro, a União e Recreio já estavam trancando para carnaval e o Campo Clube no mesmo caminho.
Ascom – “Trancando” em termos, não é?
Tito Rocha – Em termos. Mas a decadência já estava clara, por volta de 80. Já era sentida nos salões do Campo Clube e da 25 de Janeiro, ano após ano, até chegarmos a esses nossos dias em que o carnaval de clube já não existe.
Ascom – Antes da Rádio Caraíba, na sua adolescência, como era nos clubes?
Tito Rocha – Com meus 17, 18 anos, a gente amanhecia os dias nos bailes, eram momentos esperados, festas maravilhosas. Muita serpentina, confete, animação. Na adolescência eu tinha um grupo ali na Cotegipe: o Gilson, Jubenilton, o filho do Elisiário... Eram muitos! Mais tarde um pouco, do Tiro de Guerra, já trabalhando na Cipel [indústria e comércio de óleo], aí a turma era outra: Anatólio, Getúlio... Tantos! Cada carnaval! Era década de 60 e eu saía fantasiado de romano com serpentina, confete, lança-perfume.
Ascom – O lança-perfume era de vidro?
Tito Rocha – Não, era sempre de metal, proibido, mas sabe como é, clandestino tolerado que ainda hoje rola por aí.
Ascom – No geral, os trajes exorbitavam em ousadia?
Tito Rocha – O que existia era muito colorido. A nudez seria o que? Mostrar as coxas... Exibir certos dotes femininos com uma saia mais curta era uma das ousadias. Não é como hoje que passou da saia curta pro biquíni e pro seminu. Nem pensar naquele desejo da Márcia Cabrita de sair nu, mostrar o bumbum. Aqui era o carnaval de interior, como o de outras cidades e estados na época. O Nego Dedê, por exemplo, saía de Carmem Miranda, saia comprida, cobrindo as pernas. Até mesmo no Rio de Janeiro, o carnaval da pesada ficava nos clubes, mostrado pelas revistas O Cruzeiro, Manchete, que todos nós queríamos ver e comprar. Diziam que lá era uma devassidão. Aqui, a sociedade toda se conhecia, as famílias iam para as festas. A ousadia não era acintosa.
Ascom – Na década de 60, aqui o Nego Dedê botava uma sáia, e no Rio a Piná desfilou nua, só com um mini-mini tapa-sexo. Mas pra não ser impedida justificaram de antemão que era uma “negra escultural, obra de arte para o Carnaval”.
Tito Rocha – Pois é, e hoje a Globeleza tai sem tapa-sexo, na telinha e nem precisam justificar que é obra de arte. O Nego Dedê, ele era o tipo talhado para o carnaval de rua. Saia com o Dunga, Julião, com A Volta do Morro... E era atração.
Ascom – Você volta a tocar na divisão de carnaval de rua e de clube, duas manifestações da Bonfim antiga que merecem ser entendidas hoje.
Tito Rocha – É isso aí, o carnaval é um só, mas aqui houve mesmo duas fases nos carnavais. Houve um tempo que precisaram inventar a União e Recreio para palco do carnaval de clube, porque naquela fase o pólo era o carnaval de rua. O carnaval de orquestra no salão estava mixuruca, em decadência. A Sociedade dos Artistas e a 25 de Janeiro não aeram atração carnavalesca.
Ascom – Onde ficava a Sociedade dos Artistas?
Tito Rocha – Ali vizinho do Banco Itaú agora inaugurado, quase em frente da União. Era uma tentativa de eletrizar o carnaval de clube. Não adiantou, a fase era crítica, era de mudança de hábitos na sociedade e o que crescia era o carnaval de rua. Jacobina e principalmente Juazeiro sempre tiveram um carnaval de rua forte. Veio um bloco famoso de Juazeiro disputar com a Volta do Morro, com os Piratas do Samba, prêmios...
Ascom – Que tempo foi esse?
Tito Rocha – Foi na década de 70, que tinha o Trio Elétrico em alta, se firmando nas ruas de cidades grandes. E aqui muita cadência, novidades, o pessoal indo mais para o carnaval de Salvador. Nessa época eu tinha um grupo de amigos, eram cinco. Saiam de Bonfim na sexta e voltavam na quarta-feira de Cinzas.
Ascom – Dá pra supor bons carnavais no passado. Você recorda figurões e figurinhas de rua ou de clube?
Tito Rocha – De fase áurea de carnaval de rua tinha aqui blocos da sociedade, Colete Preto, que participava Renato Sena Gomes, Hélio Freitas, Zé Amilcar, muito conhecido, goleiro de fama, produtor de eventos – todos estes carnavalescos de grupos de blocos. O Hélio Freitas produzia programa, fazia locução, crônicas, poeta, declamava... Conheceu muito o Nego Dedê, o Boi do Julião...
Ascom – O que era o Boi do Julião?
Tito Rocha – Era um bloco carnavalesco que saia também com um Bumba-meu-boi. Era muito bonito, um carnaval com atrações, uns quatro a cinco blocos famosos.
Ascom – De lá pra blocos surgiram e desapareceram, como o do Fenelon...
Tito Rocha – O do Fenelon foi um bloco que fez mais de 20 carnavais. Infelizmente o processo cultural é assim. O Maia, da movelaria, eu, meu irmão, o Zé Rangoni fazíamos parte de um bloco carnavalesco, o Carlinhos, contador, o Quelebreu também... Era um tempo fantástico... da cultura da alegria bonfinense...
Ascom – Quem dirigia o bloco?
Tito Rocha – Era o Maia, ta aposentado. O Quelebreu, ave!... Era um humorista, um artista, o palhaço, um ator de teatro. Da nossa época, de nossa vivência, o Quelebreu era um cara completo!
Ascom – Há valores e variações dessa época que marcam e ficam...
Tito Rocha – Veja só, ao longo de sua existência, a sociedade bonfinense conheceu três clubes notáveis: a Sociedade dos Artistas, do Zé Amilcar e de outros; depois veio a Sociedade 25 de Janeiro; depois, com seu declínio veio a Sociedade União e Recreio. Mais adiante, a 25 retorna com a construção de um novo prédio e recupera a fama, o status, festas, bailes e aí... caiu de vez. Temos aqui um detalhe forte. As filarmônicas. A 25 tinha uma e a União outra. Boas! Qual era a melhor? Era das filarmônicas que saíam as orquestras. Os bailes ficavam bem servidos, com músicos dos melhores. Sax, trombone, trompete, clarinete... Um conjunto maravilhoso. Não era barulho, Era som melodioso, harmônico, porque as orquestras eram escolas que funcionavam o ano inteiro, queriam ser as melhores e formavam bons talentos.
Ascom – Deve ter tido existido instrumentistas excepcionais...
Tito Rocha – O Noquinha é inesquecível, um talento no piston. O Fernando Dantas, no trombone de vara... E é regente, sujeito culto. O Egnaldo Paixão, bom demaaaais no trompete. Eu tinha 16, 18 anos e nos clubes freqüentava lá e cá.
Ascom – E a partir do Campo Clube?
Tito Rocha – Lembro-me do Teobaldo, do Maia, do troféu O galo que canta recebido pelo excelente João José. Cantou em todos os clubes, no carnaval ou fora do carnaval. Um cantor de prestígio social, de primeira linha. Inclusive fui apresentador dele em eventos.
Ascom – Antes de profissional na Rádio Caraíba, você já mexia com comunicação?
Tito Rocha – Nove anos antes, em 1971, eu já editava um jornal em Bonfim, a Tribuna do Sertão. Meu sócio era Valmir Ramos, locutor de palanque e campanha política. Eu acompanhava Valmir e pegando no microfone fui abrindo caminho. Também antes fiz programa no Abaeté Clube.
– Ascom – Esse clube aparece agora na sua fala...
– Tito Rocha – O Abaeté Clube funcionava onde hoje está o Bradesco. Era um clube de igreja, Salão Paroquial. Lá o Manoelito e a esposa dele, moças, rapazes, era terminar o catecismo, as orações e começava um Programa de Calouros. A idéia cresceu e aos domingos lotava o clube: Léo, Rogério e muitos cantores cresceram a partir dali. A gente cobrava ingresso e dava prêmio aos pagantes. Fomos para o Cine São José e lotava lá também. Mas aí não tinha carnaval: a escola Piratas do Samba à parte. Nessa época de sucesso do programa, Paulo Dantas era o diretor administrativo, Rui Valadares diretor musical e artístico, eu e Maria Helena os apresentadores. No carnaval, São João, Semana Santa a gente fazia uma pausa.
Ascom – E assim você foi pegando bagagem para os carnavais...
Tito Rocha – Com certeza. Em setembro de 80 a Rádio Caraíba entrou no ar, e em 81 eu tentei fazer o carnaval de rua, que já andava enfraquecido. Criei o programa de rádio para fazer o Grito do Carnaval no sábado de carnaval. Anunciei bastante, fiz o maior auê, animação mesmo. Rapaz, foi brincadeira. A Caraíba ganhou audiência total por uma semana. Entrevistei muita gente contando a história dos carnavais de Bonfim. Seriam quatro grandes festas: o Grito no sábado, no largo da Gambôa, e os três dias de carnaval com a Caraíba na rua comandando a folia. Glória para a emissora e para mim...
Ascom – (Tito abaixou a cabeça e parou de falar, até quebrarmos o seu silêncio:) Foi o seu primeiro grande sucesso profissional?
Tito Rocha – (Baixando a voz) Rapaz, não apareceu ninguém... Só eu, o carro de som e minha equipe de produção do programa...
Ascom –- Não houve o Grito do Carnaval no sábado e nem seu programa fez os três dias seguintes?
Tito Rocha –– Fracasso. Inconformado com o chabu do carnaval, no mesmo ano de 1981, antes do São João, lancei o Forró-Grito. E aí foi sucesso total. Passamos a escolher qual o bairro e qual a rua que podia receber tanta gente, capaz de fazer o melhor Forró-Grito. Era multidão!
Ascom – E assim nasceu o Forró-Grito.
Tito Rocha – Foi. Nasceu em 81, dessa maneira, como grito, mas para o São João, coisa da alma de Bonfim.
Ascom – E o carnaval de rua?
Tito Rocha O carnaval de rua dos últimos tempos, quem deu a primeira reanimada nele foi o finado Zé Leite, na segunda metade dos anos 80. O Cândido deu um apoiozinho. Depois foi o Carlinhos [Carlos Brasileiro], o Paulo [Machado] que chegaram dando apoio ao pessoal que não desiste. E é bom. Houve o tempo em que a sociedade só se concentrava para o carnaval de clube. Alguns abnegados da Gambôa, dos Altos, do Bandeira é que se movimentavam para o carnaval de rua, mas não com a participação do povão. E depois é como estamos vendo.
Ascom – Como a sociedade mais refinada via a turma dos Piratas do Samba?
Tito Rocha –– Olha... tinha um tabu... A rua é diferente do clube. Era assim, porque de qualquer forma essa turma de clubes é uma elite social. Na rua a gente se soltava mais e provocava algum tipo de choque. Alguns que não vinham pros blocos, pra os Piratas do Samba talvez achassem que ali não era o seu ou o nosso lugar. Agente não era, digamos, flor que se cheirasse... Algumas famílias ficavam mais afastadas, mas muitos de nós éramos casados. Eu, o Rubem Santana, o meu irmão... Desfilávamos, com maizena e tudo da alegria. Carnaval.
Ascom – Na escola Piratas do Samba tinha corda, instrumentos, bom número de componentes, porta bandeira?
Tito Rocha – No começo não tinha cordas, depois sim. E instrumento de samba é batucada, couro, muito couro e tamborim... A gente tinha uma média de 50 pessoas, que para a época era grande. Agora de mulher era só a porta-bandeira.
Ascom – Claro que não era proibido. Mas só tinha uma, aí a sociedade...
Tito Rocha – O tabu tinha lá sua lógica dentro daquela época. A gente era só alegria e sem querer ajudava a quebrar o tabu, no carnaval de rua. Nas últimas vezes, os clubes ainda quiseram fazer festa, mas só dava alguns tinha gatos pingados. A 25 chegou a contratar orquestra pra quatro dias e já na segunda-feira já não foi ninguém, nem teve baile.
Ascom – Nessa decadência de clube como andava a rua?
Tito Rocha – Ali, o Beco do Bazar não dava pra tanta gente.
Ascom – Onde era o foco da folia?
Tito Rocha – Era o Beco do Bazar, o largo do Cine São José, aquelas imediações do Calçadão... Ficava pequeno para a multidão: curiosos, muita careta, fantasiados, grupos de bicicletas e haja maizena, água... Quem não levasse confete, serpentina...
Ascom – E figuras de proa que contracenavam?
Tito Rocha – Antonio Carlos Oliveira Maia, Marcelo, Floro Carvalho, Carlinhos Carvalho, João Meló, Otacílio Neves, Fernando Dantas...
Ascom – Políticos de hoje ou de ontem, clube e rua?
Tito Rocha – O Laércio Muniz era de carnaval de clube. O Gustavo Miranda de carnaval de clube e de rua. O Jambeiro, ex-vereador. O ex-vereador José de Castro, Zezinho... Prefeitos, o José Leite gostava de carnaval de rua, incentivava. Antoninho Carvalho também, gostava até mais do que eu. Carlos Brasileiro incentivou. Paulo Machado desde outrora não entrava na folia, mas ia pra perto, como ainda hoje. No carnaval de clube, a Professora Julieta Araujo era das principais. Era o tempo das marchinhas ainda no auge, Mamãe eu quero, Pierrot apaixonado... Na rua era outro ritmo, todos os ritmos. Se algum dia o carnaval voltar a crescer em Bonfim, será na rua. Nos clubes, já era. E na rua será com as músicas e ritmos que estão ai, Sangalo, Daniela, axé e os novos que vêm.
Ascom – E do grande universo da festa que é o Carnaval no geral? Hoje tem shows carnavalescos grandes, envolventes, de rua, magníficos. E o Brasil está exportando carnaval para a Europa, Estados Unidos. Mas os carnavais antigos são inesquecíveis (Tito sabe cantar): Êi você ai / me dá um dinheiro aí / Me dá um dinheiro aí! Hoje é chique até demais, é carnaval produzido. Outrora os moradores da periferia da cidade vinham pra rua, não tinha violência como hoje e todo mundo voltava pra casa normalmente. O carnaval sempre foi no Beco do Bazar ao Largo do Cinema [São José]. Depois é que foi até o palanque da Praça Nova. Mas mudou muito... É como o São João sempre foi de casa em casa. Do governo de Miguel Abraão pra cá é que se concentrou na Praça Nova. O Ataualpa e o Candido Felix botaram umas barracas em frente a 25 de Janeiro e no governo de Miguelzinho [Miguel Abraão] passou para umas 60 ou mais barracas e aí, o São João concentrou-se na Praça Nova até sair, com Carlos Brasileiro e Paulo Machado para o Parque da Cidade.
Ascom – Pelo jeito, um dia ainda vamos falar de São João...
Tito Rocha – É, mas o nosso assunto é carnaval. Carnaval antigo. Que faz lembrar o José Amilcar. Que retorna a gente pro Boi do Julião! Ah, o Kelebreu... Sim, e a Macaca do Zoião! E o Nego Dedê, não tem nem como descrevê-lo, foi brilho pra valer no apogeu do carnaval de rua! Ainda tem o Idinho, dos Filhos do Morro, antes d’A Volta do Morro, é ele que mais puxa as últimas décadas. Tem o Toinho do Bloco da Saudade também nessa história mais nova... Ah... É muita lembrança boa. Sabe que mexe com
a gente???!!!...(Tito quase pulou da cadeira, mas limitou-se a levantar o braço e clamar): Que me dá uma saudade danada dá.
sábado, 5 de março de 2011
Carnaval antigo; Entrevista com Tito Rocha
08:10
Pedro Castor



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